Depois de ontem, São Paulo não será mais a mesma

Depois de ontem, São Paulo não será mais a mesma

Por Marcelo Rubens Paiva

Marca na agenda: 28 de junho de 2015 é um marco na história de São Paulo.

São Paulo já foi linda, arborizada, com muitos rios, riachos, matas e praças. Foi.

Tinha uma árvore gigantesca numa rotatória no começo da Eusébio Matoso. Ela ocupava toda uma pequena praça. Quem chegava do sul do país, pela antiga BR-3, recebia dela as boas-vindas.

Passaram o trator: foi arrancada, e nem a pracinha resistiu ao alargamento da avenida.

A Praça da Árvore na Vila Mariana virou uma praça de concreto, armação de um duto do metrô construído em meados dos anos 1970.

A Praça Marechal Teodoro no centro virou apoio das pilastras do Minhocão. Como a Praça 14 Bis na Bela Vista, em que no passado tinha uma réplica o avião do Santos Dumont.

O Anhangabaú era lindo. O Parque Dom Pedro sumiu sob pilastras da Radial Leste. O Ibirapuera foi desmembrado e fatiado: parte foi para o Exército, parte para o Detran, parte para a Assembleia Legislativa. Rios foram aterrados.

Ontem, na inauguração da ciclovia da Paulista, provou-se que uma tendência se inverteu: São Paulo não aguenta mais dar seu espaço público e sua natureza para os carros.

Queremos a cidade de volta. Queremos reocupa-la. Queremos voltar para as ruas. Queremos lazer. Queremos andar e respirar livremente.

As bicicletas começam a ocupar a vista da cidade. Ciclovias tão criticadas começam a ser frequentadas e a servir de via de locomoção.

Aos fins de semana, a população toma as ruas com bicicletas e skates.

Muita gente questiona o modo de vida, passa a deixar o carro na garagem e a experimentar o metrô, corredores de ônibus, ônibus com wi-fi e bicicleta.

Agora, começar a ocupar o que foi destinado aos carros. É apenas o começo. Uma revolução começa. São Paulo não será mais a mesma.

Neste ano, dirigi meu carro duas vezes.

Não marco encontros e reuniões fora do alcance do metrô (moro a duas quadras de uma estação) ou das linhas de ônibus do bairro.

Minha irmã, vizinha, uma pesquisadora de caminhos, descobriu enfim que o jeito mais rápido de se chegar ao aeroporto é de busão.

E infinitamente mais barato.

Já é!

Fonte: Folha de São Paulo